A Maronesa como elemento central do território

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Perceber de perto a ligação entre a vaca Maronesa, a natureza e o produtor foi o objetivo do seminário “Pastagens, Vacas, Lobos e Homens”, que decorreu em Vila Pouca de Aguiar, nos dias 1 e 2 de junho. O encontro juntou especialistas pecuários e discussão científica, com visitas a lameiros e lugares de pastoreio, integrado no projeto “Terra Maronesa”, de promoção da raça autóctone, originária do Alvão.

A sessão de abertura contou com a presença de Alberto Machado, presidente da Câmara Municipal, Carlos Aguiar, do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), Alberto Batista, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Paula Teixeira, da Associação de Criadores do Maronês, e Filipe Ribeiro, do jornal Notícias de Aguiar.

Segundo a organização “é importante que se perceba que a vaca Maronesa tem um papel fundamental no equilíbrio do ecossistema e que a valorização deste animal traz benefícios a todos os níveis: desde culturais, a económicos, passando pelos ambientais.”

Empenhado em mostrar as diferentes dimensões da vaca Maronesa, surgiu o projeto “Terra Maronesa”. Um projeto que parte da valorização desta raça autóctone e que se estende a toda a região, unindo a cultura, economia, história e ambiente, valorizando os produtos locais e, também por isso, comunicando o território e contribuindo para a atração turística.

O projeto designado “Terra Maronesa” está a ser trabalhado em conjunto entre a Associação de Criadores do Maronês, Interreg Sudoe/SOS Lameiros, Aguiarfloresta, Instituto Politécnico de Bragança (IPB), Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e ATCoop – Alto Tâmega Cooperativo.

Número de maronesas está a aumentar

Depois de anos de decréscimo do número de efetivos, a raça Maronesa sentiu um ligeiro crescimento nos últimos anos. De acordo com a Associação de Criadores do Maronês, com sede em Vila Real, atualmente há 990 criadores, distribuídos por 1200 explorações – há criadores com mais do que uma exploração – e 4100 vacas em linha pura, ou seja, maronesas, com um total de 3800 nascimentos por ano.

“Houve uma ligeira recuperação e julgo que somos capazes de estabilizar e aumentar este efetivo. Em termos de criadores, os mais velhos, provavelmente à medida que a idade avança, vão desistindo, mas a nossa faixa etária de criadores situa-se nos 50, 60 anos de idade. É uma atividade familiar, que passa de pais para filhos e netos… há continuidade e paixão pela raça e pelo que fazem. Penso, contudo, que provavelmente vai aumentar o número de jovens nesta atividade”, contou Paula Teixeira, à margem do seminário.

Apesar de ser uma raça originária do Alvão, que agrega os municípios de Vila Real, Mondim de Basto, Ribeira de Pena e Vila Pouca de Aguiar, os produtores não se concentram apenas neste território. Manuel Borges, produtor do Pópulo, na zona montanhosa do concelho de Alijó, é exemplo disso mesmo. Tem atualmente 28 vacas e reconhece as propriedades únicas desta raça. “O meu pai já trabalhava com a Maronesa, eram as vacas antigas de trabalho. Sempre estivemos ligados à Maronesa. É uma raça que se adapta melhor à região, é rústica, anda ao ar livre, não tem mito problemas, ao contrário de outras raças, nem de partos, nem doenças. É uma raça própria de montanha, portanto, é nossa. E, em termos gastronómicos, é das melhores vitelas que há, sem dúvida”, reconheceu.

Pastoreio origina mais e melhor biodiversidade

Os contributos da raça Maronesa para o território são diversos, temas de resto abordados no seminário “Pastagens, Vacas, Lobos e Homens”, com especialistas de várias áreas, como botânica, agronomia e agroindústria. Carlos Aguiar, professor do Instituto Politécnico de Bragança, não hesita em assumir que “a presença da Maronesa, neste território, é determinante em vários domínios”.

“A vaca, ao pastar, permite que as serras tenham uma maior produção herbácea, o que significa que a produtividade primária da montanha aumenta. Há ainda uma redução do crescimento dos matos. Esta é uma forma sustentável de conseguirmos fogos menos frequentes e menos severos, com muito menos risco para as pessoas”, defendeu, assumindo que “a Maronesa torna a serra mais produtiva, mais diversa, com mais e melhor fauna e flora”.

A consumir esta espécies está, portanto, a contribuir para este serviço. “Alguém que se senta à mesa a comer um prato de Maronesa, está, no fim de contas, a dar um grande contributo para a melhoria dos nossos ecossistemas de montanha, além de usufruir de uma carne de excelência”, disse.

 

Fogos menos severos e com menos risco para o homem

A questão dos fogos é, de uma forma particular, a que mais preocupa José Lima Santos, professor catedrático do Instituto Superior de Agronomia, um dos oradores do seminário. “A vaca, de uma forma geral, e esta forma de maneio, em particular, com esta raça de montanha, acaba por ordenar a paisagem num mosaico, que nos presta muitos serviços. Diminui a propagação de fogos, e ao fazer isso está a proteger o solo, porque a seguir aos incêndios há chuvadas, que depois contaminam a água”, considerou, acrescentando que ultimamente se fala muito da “cabra sapadora”, e bem, mas a vaca, enquanto ruminante de grande porte, tem capacidade para consumidor muito mais biomassa.

Para o especialista, “a Maronesa ajuda a criar habitat para um conjunto de espécies que vive no mosaico e não apenas na floresta”. “Há mais biodiversidade aqui do que na floresta. E a vaca é um elemento central nisto tudo”, disse.

Vânia Proença, do Instituto Superior Técnico, de Lisboa, que no seminário abordou “a biodiversidade em normas de sustentabilidade do setor agroalimentar”, só vem corroborar esta teoria, defendendo que “os herbívoros têm um papel fundamental na manutenção e na diversidade dos habitats”. “Os bovinos têm um papel importantíssimo na reciclagem de nutrientes, na disponibilização de nutrientes para a flora, e em específico em Portugal, no controlo e manutenção de espécies lenhosas, que estão muito associadas ao risco de incêndio”, explicou.

Tertúlia à volta da Maronesa

Paralelamente ao programa do seminário “Pastagens, Vacas, Lobos e Homens”, que aconteceu nos dias 1 e 2 de junho, realizou-se na passada sexta-feira, no Centro de Convívio de Souto e Outeiro, um programa cultural com atividades inéditas.

Assim, à noite, com início às 21 horas, aconteceu a abertura da exposição fotográfica sobre a “Terra Maronesa”, seguida de uma tertúlia, com o mesmo nome, moderada por Filipe Ribeiro, diretor do Notícias de Aguiar, com os produtores António Moutinho, de Souto, e Mário Queiroz, de Bilhó (Mondim de Basto). Os “guardiões do Alvão” partilharam histórias, falaram da relação com a vaca Maronesa e aquilo que consideram ser o futuro desta raça autóctone, que acrescenta um elevado valor ao território do Alvão.

Por fim, para terminar a noite em grande, foi organizada uma degustação de “Sabores de Montanha”, com carne de vitela Maronesa, grelhada na brasa, como não poderia deixar de ser, e pão e vinha da região.

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