Vinho medalhado dá nome a Vila Pouca de Aguiar

Carlos Bastos é um jovem aguiarense, jornalista de formação, que se dedicou recentemente à produção de vinho, criando a marca Head Rock, com sede em Nozedo. Este “atrevimento” valeu-se, na passada semana, a Medalha Municipal de Mérito – Grau Cobre, uma distinção que recebeu com “alguma surpresa” mas que é o resultado de um esforço e dedicação ímpares nesta área, levando o nome de Vila Pouca de Aguiar – numa área de pouca expressão no concelho – mais além.

Esta semana falamos com o jovem empreendedor, recentemente regressado às origens, que nos confessou os desafios da nova marca e a forte aposta na vertente tecnológica, que distingue a Head Rock pela qualidade e capacidade de inovação.

 

Quando e como surgiu a marca Head Rock?

A marca Head Rock surge em 2011, aquando do lançamento do primeiro vinho produzido. A intenção de associar o nome comercial à imagem da marca, a rocha cujo contorno remete à silhueta de um rosto, leva-nos, depois de inúmeras tentativas de registar marcas associadas à dita pedra, a registar a marca Head Rock, pensando já na possibilidade de exportar os vinhos para o mercado europeu.

 

Por que razão foi criada, não sendo esta a sua área de formação?

Apesar de ser licenciado em Ciências da Comunicação e de ter já passado por publicações como o AutoSport e Volante, o crescimento do projeto e a vontade de “regressar às origens” fez com que integrasse a tempo inteiro este projeto.

Dada a necessidade de explorar um pouco mais os conhecimentos nesta área, de forma a corresponder aos desafios que se vão colocando ao longo de todo o processo, decidi investir na formação específica e terminei recentemente a Pós-Graduação em Enologia na Escola Superior de Bio-tecnologia do Porto.

Para além do conhecimento técnico ali adquirido, a troca de conhecimentos com todos os colegas da área, permitem um olhar muito mais abrangente e crítico sobre aquilo que faço com os meus vinhos e também uma procura constante de melhoria no processo de produção, quer na vinha, quer na adega.

Também foi aqui que conheci o Pedro Pimentel, que é atualmente o enólogo consultor deste projeto, permitindo assim aliar o meu conhecimento técnico, tanto da vinha como dos vinhos que produzimos, à sua formação e experiência técnica nesta área, conduzindo a uma nova filosofia de trabalho, com a continuação na aposta na qualidade e também no “refresh” à imagem e ao alargamento da gama de vinhos disponível.

Em que lugar fica situada a vinha e como se denomina?

Para nós, Vidago é a “casa” das nossas vinhas. Existem várias denominações para o local, desde Arcossó, Serra do Bolhão, Serra d’Oura (marca que temos em processo de registo para futuras colheitas), entre outras. Apesar de todas estas possibilidades, Vidago é para nós a que faz mais sentido, mesmo em termos de facilidade na localização geográfica para os nossos clientes.

 

Que vinhos fazem parte desta marca?

De momento está apenas a marca Head Rock no mercado. Esta é a marca mãe, por assim dizer. Aliás, o projeto é apresentado como Head Rock Wines ou Vinhos Head Rock. Depois, dentro da marca foram sendo criadas pequenas edições limitadas de vinhos que, para nós, são especiais:

O Head Rock Reserva Alvarinho, por exemplo, ou os Head Rock Grande Reserva Tinto, das colheitas 2014 e 2015, são vinhos distintos, colheitas em que achámos que fazia sentido investir ou apostar na diferenciação e criar vinhos de perfis distintos, para romper com a monotonia de ter apenas duas referências disponíveis.

Já este ano, lançamos o Head Rock Reserva Rosé. Foi a primeira experiência nesta categoria de vinhos e o resultado não poderia ser melhor: a crítica especializada tem feito boas referências a este vinho, como foi o caso da revista Fugas, que na pessoa do Pedro Garcias se referiu a este rosé como sendo “ um rosé sério, um dos melhores que já provámos este ano (…)”.

Quanto ao futuro, temos vontade de experimentar novos caminhos, como produzir um espumante e/ou um de colheita tardia, mas só o tempo dirá se é possível, pois este último, por exemplo, só se consegue produzir em anos excecionais.

 

Que medalhas ou prémios já recebeu a marca?

Os concursos ainda são algo de novo para nós. No ano passado participámos pela primeira vez no Concurso de Vinhos de Portugal, com dois vinhos, e conseguimos uma medalha de Prata. O mesmo aconteceu no Concurso de Vinhos de Trás-os-Montes.

Este ano decidimos colocar à prova os nossos vinhos em vários concursos: Concurso de Vinhos de Portugal, que resultou na atribuição de Medalha de Ouro no Head Rock Reserva Branco 2015; Portugal Wine Trophy, Berliner Wein Trophy e Asia Wine Trophy, concursos organizados pela Deutsche Wein Marketing. No Portugal Wine Trophy levámos três vinhos a concurso e arrecadámos três medalhas; Medalha de Ouro, mais uma vez, no Head Rock Reserva Branco 2015 e também no Head Rock Colheita Selecionada Branco 2016, e Medalha de Prata com o Head Rock Grande Reserva Tinto 2015.

Agora estamos à espera do resultado dos outros dois concursos, Berlin e Asia, cujos resultados serão conhecidos em Agosto e Setembro, respetivamente.

Finalmente, enviámos também os nossos vinhos para o Concurso de Vinhos de Trás-os-Montes, cujas provas de avaliação se realizaram no passado dia 27 de Junho. Os resultados deste concurso só serão conhecidos lá para meados do mês de Julho.

Onde e como é possível experimentar estes vinhos?

Felizmente, aos poucos, o comércio local vai disponibilizando os nossos vinhos e vamos notando que existe já alguma procura. A restauração também demonstra algum interesse, mas neste campo ainda há muito trabalho a fazer, pois tanto a marca Head Rock como os vinhos de Trás-os-Montes, ainda são pouco procurados pelo público, o que leva este setor a mostrar alguma resistência à sua comercialização.

No entanto, as portas da adega estão sempre abertas para receber clientes ou todos aqueles que tenham interesse em conhecer os vinhos Head Rock e a sua produção. Temos já alguns clientes que nos procuram e também pessoas que desconhecem por completo que nos dedicamos a este ramo, pois somos essencialmente conhecidos como proprietários da Auto Nuzedo, empresa já com 28 anos de trabalho no concelho. A adega é no mesmo local, por isso temos sempre imenso prazer em receber todos aqueles que queiram saber um pouco mais sobre os vinhos que produzimos.

 

Fale-nos um pouco da aposta tecnológica na produção deste vinho.

A aposta na tecnologia foi desde o início, uma bandeira da Head Rock Wines. Sempre procurámos investir em equipamentos de qualidade, equipamentos que permitam transformar as uvas que produzimos, naquilo que são os nossos vinhos, porque no fundo, os vinhos que produzimos são a expressão máxima do trabalho que desenvolvemos na vinha. A produção de vinhos não pode ser encarada de outra forma: o vinho é a expressão do Terroir que lhe dá origem, que é resumidamente um conjunto dos factores como a topografia, orografia, geologia, drenagem, clima e microclima, condução da vinha, castas, porta-enxerto, intervenção humana, cultura, história, tradição.

No fundo, desde que a uva chega à nossa adega, transportada em caixas de cerca de 20 quilos, é tratada com o máximo respeito, tentando sempre preservar os aromas e qualidades, daí a utilização de gelo seco para minimizar a oxidação do mosto, o uso de prensa pneumática, o recurso à flotação (técnica de injeção de azoto e gelatina no mosto para ajudar na limpeza inicial do mosto), a utilização de bombas e todos os materiais em inox, até à escolha dos produtos enológicos utilizados. Mas, acima de tudo, a higiene da adega e de todos equipamentos é um fator crucial para a qualidade do produto final.

Quanto ao FlexCube, esta é uma tecnologia que já existe há vários anos na Austrália e que está a ser introduzida em Portugal recentemente. A nossa adega foi escolhida em Trás-os-Montes para fazer o ensaio desta que é denominada como a “nova geração de barricas”. Aqui a “culpa” tem de ser atribuída ao nosso enólogo, o Pedro Pimentel, que conseguiu atrair para o nosso projeto este tão importante parceiro.

No fundo, são tanques de 1000 litros de capacidade, construídos num polímero especialmente desenvolvido para o efeito, que simula as trocas de oxigénio existentes nas tradicionais barricas de carvalho. No seu interior são colocados pedaços de madeira, correspondentes aos existentes numa barrica normal, com as diferentes dimensões e intensidade de tosta, que vão conferir ao vinho todos os sabores, taninos e aromas que tipicamente encontramos num vinho de estágio em barricas tradicionais.

 

Edição nº 144, já nas bancas

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