Entrevista ao diretor artístico do Teatro de Vila Real

 

Com um percurso ímpar na área da cultura, Rui Ângelo Araújo, aguiarense natural de Pedras Salgadas, atualmente diretor artístico do Teatro Municipal de Vila Real, nasceu em 1968. Formado em Estudos Artísticos, fundou e dirigiu dois projetos culturais marcantes no concelho de Vila Pouca de Aguiar (“Periférica e Eito Fora”), publicou a novela “A Origem do Ódio”, o conto “O Viaduto”, e ainda três romances.

Rui Ângelo Araújo, que participou em algumas experiências amadoras na área da música e trabalhou em engenharia civil e arquitetura de 1990 a 2003, foi entre agosto de 2003 a junho de 2014 coordenador de produção e programação do Teatro de Vila Real, data a partir da qual assumiu funções de diretor artístico do referido equipamento cultural. Ao “Notícias de Aguiar” falou da experiência do cargo, dos projetos culturais que impulsionou no concelho de onde é natural, e do estado da cultura na região.

 

É atualmente diretor artístico do Teatro de Vila Real. Em que ano assumiu o cargo? O que mudou desde então, principalmente em termos de programação?

Sem descurar o que já era essencial e que mantém Vila Real como uma das cidades médias mais interessantes do ponto de vista cultural (refiro-me a uma programação de qualidade, diversificada, de rara intensidade e capaz de assegurar opções para todos os públicos), reforçámos o serviço educativo e, por exemplo, criámos uma linha programática que procura em vários momentos envolver grupos ou pessoas da comunidade local, com ou sem experiência de palco, em espectáculos de companhias e artistas reconhecidos. Tem sido uma iniciativa com boa adesão e com resultados muito positivos.

Noutra linha, procurámos tirar ainda mais proveito das potencialidades arquitectónicas do edifício e da sua envolvente, criando rubricas de programação como o Boreal – Festival de Inverno e os Concertos ao Pôr-do-Sol (dedicados à nova música portuguesa) ou o cinema ao ar livre.

Renovámos a imagem gráfica e a comunicação em geral.

Temos também desenvolvido um trabalho mais ou menos discreto mas alargado no apoio a diversas estruturas de produção cultural da cidade. Isto tem permitido reforçar a diversificação e acima de tudo ajudar a uma renovação geracional nos promotores da oferta cultural em Vila Real.

Por paradoxal que pareça, temos aproveitado as fragilidades que a crise dos últimos anos instituiu no sector cultural para arriscar ainda mais em algumas linhas estéticas de programação, e a cidade, à sua dimensão, tem correspondido de uma forma muito interessante.

Temos ainda vários outros projectos à espera das circunstâncias certas para se concretizarem.

Será talvez também oportuno referir o papel estruturante do Teatro na realização de Vila Real Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2016, evento que tem permitido ilustrar e projectar ainda mais a vivacidade cultural da cidade.

 

De entre as vertentes culturais existentes, a que o move mais é a literatura? Pelo número de títulos já publicados, nunca pensou dedicar-se exclusivamente a esta área?

Os meus interesses culturais são muito diversificados. A literatura ocupa um lugar especial na minha vida, é verdade, mas sem qualquer incompatibilidade com outras vertentes. Sou antes de mais um leitor e um espectador (um espectador com particular interesse em dança contemporânea). Se me permite um parentese, é pena que o lugar do espectador seja hoje tão pouco estimulado socialmente. As escolas e a comunicação social promovem com mais ênfase os talentos, as vocações (mesmo quando não existem), o protagonismo, os banais quinze minutos de fama, quando o papel do espectador — do espectador curioso, informado e exigente — é o elemento fundamental para um meio artístico e cultural vivo e sustentável. Acresce que ser espectador é um privilégio, poder desfrutar da maravilha da criação dos grandes artistas. Sempre que posso, abdico de qualquer outra actividade para ser um feliz espectador — que é, aliás, o lugar perfeito do escritor: assistir ao desenrolar da vida e da História e depois fazer qualquer coisa de literário com isso.

Poucos vivem da literatura em Portugal e cada vez menos no resto do mundo, se falarmos de escritores mesmo. A humanidade, na velha e cíclica presunção das civilizações decadentes, decidiu (pobre tola!) achar a literatura dispensável. A minha é-o, certamente, e não aspiro em todo o caso a viver financeiramente da literatura. Gostaria de ter mais tempo para escrever, sim, mas na minha época dificilmente verá a luz do dia uma sociedade que reparta mais o trabalho e os rendimentos, pelo que terei de me contentar em ser mais um escritor de madrugadas varadas. Vivo bem com isso.

 

Como sabe, maioria dos espaços culturais da região são municipais ou regionais, geridos por entidades públicas. A cultura no interior do interior do país é viável? Se não for vista de uma perspectiva empresarial, pode correr o risco de se institucionalizar definitivamente?

A cultura é viável quando as populações a desejam. Do ponto de vista empresarial, muito poucas manifestações culturais são viáveis, tanto no interior como nos grandes centros, em Portugal como no resto da Europa.

A cultura é “institucionalizada” em todo o mundo, não é só em Portugal e muito menos só no interior. Sempre foi, aliás. No Renascimento, os mecenas cumpriam o papel que hoje cumpre o Estado (quando cumpre). De resto, os mecenas do século XV, os príncipes e as igrejas, também investiam na arte o dinheiro que arrecadavam da tributação do trabalho alheio só que não eram eleitos, pelo que na verdade o sistema é bem mais democrático hoje.

Devemos temer muito mais o risco de uma empresarialização da cultura do que o da institucionalização. Se a cultura for encarada de uma perspectiva meramente empresarial, temos de nos preparar, como sociedade, assumindo com consciência as consequências disso, para aceitar o fim não só de manifestações ditas eruditas, como a música clássica e a ópera, mas também da dança (clássica ou contemporânea), de todo o teatro que não seja comédia comercial ligeira ou feito por amadores apenas bem-intencionados, de todos os géneros de música que não tenham air play nas rádios e televisões comerciais, do cinema que não seja de espírito hollywoodesco, da literatura que não seja feita por figuras mediáticas, etc. No interior, aliás, nem sequer temos população suficiente para financiar com as receitas de bilheteira alguns eventos comerciais, quanto mais outros géneros de cultura. Na verdade, sem o Estado, nas suas diversas formas (ministério, autarquias, universidades, etc.), até vários dos eventos mais populares que hoje existem deixariam de ser fazer.

Os únicos espaços que asseguram uma verdadeira regularidade e diversidade cultural são aqueles onde há investimento público.

Não quero dizer que o investimento público é condição suficiente para haver diversidade. Infelizmente são numerosos os casos onde o investimento público se limita ao entretenimento, poderia portanto, esse sim, na sua maior parte ser substituído por investimento privado.

Quando viajamos pela Europa, pela própria Alemanha, por exemplo, e apesar do estigma que nos últimos anos nos foi imposto, reparamos que os estados continuam a financiar, mais generosamente do que em Portugal, uma quantidade grande de formas de cultura e de infra-estruturas culturais. As grandes ou médias cidades europeias (e várias pequenas) não abdicam dos seus centros culturais e, tirando uma ou outra sala de espectáculos turística de Londres ou Paris, algumas salas de concertos pop/rock e algumas galerias de arte, nenhuns são explorados em regime exclusivamente empresarial.

Se temos um entendimento verdadeiramente democrático do acesso à cultura, ou seja, se queremos assegurar que as pessoas têm opções e o direito de escolher por si mesmas, não nos resta senão ser partidários da existência de espaços financiados pelo Estado — e, claro, ser exigentes quanto ao rigor da gestão e à diversidade do serviço que eles prestam. A alternativa — que é a massificação — não é democrática, porque não nos dá opções.

A cultura no interior do país é, em suma, salvaguardadas as proporções, tão viável quanto as escolas ou os hospitais do interior do país. É uma questão das decisões que as comunidades tomam quanto à forma como querem viver, do nível e género de bem-estar que estão dispostas a pagar com os seus impostos. Não é uma questão de rentabilização comercial.

 

Sente que ainda há um défice de cultura na região, tanto na oferta como na procura, ou tem registado uma evolução nesse aspeto?

Enquanto espectador, gostaria de ter ainda mais oferta na região. Há numerosas peças de teatro e dança que nunca chegam a passar por Vila Real ou Bragança. Há uma quantidade de artistas e formações de vários géneros musicais que seria interessante ver por cá com mais frequência. Há áreas da arte e do saber com muito menos actividade do que seria desejável. Mas isto é uma ambição minha, não significa que haja um défice generalizado na oferta, pelo menos comparativamente a grande parte do país. Não creio exagerar se disser que temos uma oferta como nunca tivemos na História. A crise dos últimos anos fragilizou um pouco o que se vinha construindo, mas não ao ponto de ter havido um retrocesso grave. Apesar de tudo, em certas áreas têm surgido novos projectos, novos eventos e até infra-estruturas. Julgo que ainda nem toda a população ganhou consciência do dinamismo do meio cultural, pelo menos nem toda adaptou os seus hábitos à actual oferta cultural da região. A agenda da Capital da Cultura, por exemplo, em Vila Real, revelou uma realidade que não tem sido espelhada em toda a sua dimensão e riqueza pela comunicação social, nacional e local.

 

Sendo natural de Vila Pouca de Aguiar, possui atualmente algum projeto que o ligue profissionalmente à sua terra natal?

Infelizmente, a minha vida profissional dos últimos treze anos implicou uma tal entrega que não sobrou tempo para outros projectos. Foi, aliás, uma das razões que levou ao fim dos que antes tinha.

 

Esteve em tempos envolvido na produção de dois títulos de âmbito cultural no concelho de Vila Pouca de Aguiar. O que o motivou a trabalhar nesses projetos? Por que razão não tiveram continuidade?

Refere-se ao Eito Fora – Jornal de Vilarelho e à revista Periférica. Foram publicações surgidas no culminar de experiências e inquietações artísticas e culturais de um pequeno conjunto de pessoas, autodidactas, que estavam pouco confortáveis no papel acanhado e tradicionalista que os transmontanos costumavam reservar para si mesmos no que se referia a pensar pela própria cabeça e a ter ambição criativa.

Em concreto, o Eito Fora surgiu em 1998 da vontade do Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho de promover uma publicação de pensamento crítico no concelho de Vila Pouca. Exerceu esse papel com um humor e uma acutilância que não tenho notícia de se ter voltado a verificar com nenhuma publicação, em Vila Pouca ou noutro concelho da região. A Periférica sucedeu-lhe em 2002, quando nos cansámos do modelo anterior e percebemos que a audiência da publicação era francamente alheia às fronteiras regionais. O nível de intervenção e participação crescera além das nossas expectativas e era já nacional, e foi isso que prosseguimos durante quatro anos com a Periférica. A revista de regional já só tinha a sede e o apoio incondicional e cúmplice do GDCV e de vários fiéis patrocinadores. A sua linha editorial e o impacto eram nacionais, em diálogo com o meio literário e crítico. É hoje, dez anos depois, recordada com frequência e citada nesse circuito. Em Trás-os-Montes de vez em quando é descoberta com surpresa, como uma improvável ou alienígena relíquia arqueológica. Terminou porque vários de nós se envolveram em novas profissões e projectos e porque cresceu para além do que o nosso talento na altura poderia sustentar. Foi essa consciência crítica das nossas limitações que ditou o seu fim.

Só conheço uma publicação transmonta que de certa forma, sem conhecimento ou intenção disso, prosseguiu a herança do Eito Fora e da Periférica, talvez até com maior mérito nalgumas áreas: a IP4, magazine online de momento infelizmente inactiva.

O tipo de intervenção destas publicações está geralmente associado a gerações mais jovens, como nós éramos há quase vinte anos, mas não vejo razões para me excluir de iniciativa nenhuma.

 

Em tempos teceu, no seu blog, algumas considerações sobre Pedras Salgadas. Acha que a vila termal tem condições para voltar a fazer jus ao nome de “rainha das termas”? O que falta para Pedras Salgadas regressar aos tempos áureos? 

As opiniões que possa ter sobre este assunto não são mais do que considerações pessoais ou especulações de um cidadão comum.

Julgo que eventuais novos “tempos áureos” das Pedras (dificilmente como os anteriores) não dependem apenas da estância, mas do destino que tenha o termalismo em Portugal. Não necessariamente o termalismo, mas o nível de procura turística que possam voltar a ter os parques tardo-românticos que o termalismo espalhou pelo país há mais de um século. Repare que, como sociedade, a partir de certa altura privilegiámos para férias ou descanso as praias, e essa mentalidade tem demorado a alterar-se. A procura interna será tanto mais retomada quanto mais consigamos diversificar, em Portugal, os gostos e os interesses de lazer e turismo. E essa diversificação, essa mudança de estado de espírito, é uma tarefa colectiva, não de uma qualquer entidade salvífica. O país e as comunidades locais precisam de voltar a gostar das suas estâncias termais não como ex-libris saudosos, de postal, mas como locais efectivos e privilegiados de visita e estadia.

Dito isto, não deve ser negligenciado um certo turismo nostálgico, que existe, quer de antigos frequentadores das termas ou seus descendentes, quer de um tipo de turista interessado no ambiente específico e glamouroso da belle époque termal.

Claro que nas Pedras esta nostalgia e este glamour têm sido infelizmente prejudicados pelas sucessivas demolições. Pelo seu lado, a vila também não cresceu bem, em volta do Parque, descaracterizou-se, apesar de um ou outro esforço em sentido contrário.

Resta-nos, neste domínio, evitar que o Grande Hotel e sobretudo o Hotel Universal sejam demolidos ou descaracterizados (como já o Avelames tinha sido na última intervenção antes da demolição) e que, caso não possam ser reconstruídos com bom-gosto e respeito pelo espírito arquitectónico original, as suas ruínas sejam consolidadas e mantidas, sem vergonha, como testemunhos físicos de uma época, devidamente integradas em arranjos urbanísticos e paisagísticos discretos e favoráveis. (Não deve ser subestimada nenhuma forma de património com potencial de exibição.)

Depois cabe em particular ao proprietário do parque, às instituições de turismo nacionais, aos poderes locais e eventuais investidores (pequenos e grandes, locais e externos) unir esforços na criação de serviços e na captação de fluxos internacionais de turismo que vejam no clima, nas águas termais, na natureza (parque e serranias, que convém preservar), nas infra-estruturas entretanto disponíveis (incluindo o centro hípico) e nos serviços oferecidos motivos para a estadia. O termalismo não se restaurará por decreto ou mero desejo, mas por uma conjuntura global favorável e por um conjunto de infra-estruturas e serviços suficientemente atractivos, aliados a uma promoção nacional e internacional eficaz.

 

Entrevista publicada na edição nº 98 do jornal “Notícias de Aguiar”

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Diretor do jornal semanal "Notícias de Aguiar" Jornalista profissional desde 2009

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